Capítulo 169: Quando a Estrutura Balança
O problema surgiu num dia chuvosa.
Camila estava no meio de um atendimento quando recebeu uma mensagem do engenheiro pedindo que ela fosse até o prédio novo “assim que possível”. O tom era profissional, mas havia algo ali que apertou seu estômago.
Ela terminou o atendimento com serenidade, como sempre fazia, e atravessou a calçada tentando controlar os pensamentos.
Ao entrar no espaço em obra, percebeu o clima diferente. Dois operários conversavam em voz baixa perto da parede lateral, onde já haviam começado a instalar parte do isolamento acústico.
O engenheiro se aproximou.
— Precisamos conversar.
Camila sentiu o coração acelerar.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele apontou para a estrutura exposta.
— Descobrimos um problema na parte elétrica antiga do prédio. A fiação original não suporta a carga que vocês planejaram para as baias, iluminação e salas de reunião. Vamos precisar refazer praticamente toda a rede elétrica.
Camila ficou em silêncio por alguns segundos.
— Isso significa…?
— Mais tempo e um custo extra.
As palavras ecoaram como martelos.
Mais tempo. Mais custo.
Ela respirou fundo, lembrando-se de tudo o que havia aprendido nos últimos meses: não reagir no impulso, ouvir primeiro, decidir depois.
— Quanto tempo a mais?
— Talvez três ou quatro semanas além do previsto, dependendo da disponibilidade dos materiais.
A previsão inicial era de cerca de três meses para a conclusão. Agora poderia ultrapassar isso.
Camila assentiu lentamente.
— E em relação ao orçamento?
Ele explicou os números com clareza. Não era um valor pequeno, mas também não tornava o projeto inviável.
Ainda assim, era um impacto.
Naquela tarde, ela chamou Anna e Roberta para uma conversa no Studio. Sentaram-se na cafeteria, como tantas outras vezes.
— Temos um imprevisto — começou Camila, com honestidade.
Roberta ouviu os detalhes já abrindo mentalmente suas planilhas.
— Dá para ajustar — disse depois de alguns minutos de cálculo. — Não é confortável, mas é possível. Talvez tenhamos que adiar alguns acabamentos mais sofisticados para uma segunda etapa.
Anna segurou a mão de Camila.
— O importante é que o problema apareceu agora, não depois de tudo pronto.
Camila sentiu os olhos marejarem, mas não de desespero — e sim de responsabilidade.
— Eu fiquei com medo por alguns minutos — confessou. — Medo de ter dado um passo maior que a perna.
Roberta foi direta, como sempre.
— Crescimento nunca vem sem ajuste de rota.
Naquela noite, já na kitnet, Camila contou tudo a Rafael. Ele ouviu com atenção, sentado na beira da cama.
— Você ainda acredita nesse projeto? — perguntou ele.
Ela não hesitou.
— Acredito.
— Então é só mais uma etapa. Uma estrutura mais forte para sustentar tudo o que vocês estão construindo.
As palavras fizeram sentido. Literalmente.
Nos dias seguintes, Camila tomou decisões firmes. Aprovaram a reestruturação elétrica completa. Ajustaram o orçamento. Adiaram alguns detalhes decorativos, priorizando segurança e funcionalidade.
Quando os eletricistas começaram a substituir toda a rede antiga, ela ficou alguns minutos observando os fios sendo retirados.
Era simbólico.
Para sustentar o novo, às vezes era preciso desmontar o antigo.
As clientes foram informadas com transparência sobre um possível pequeno atraso na inauguração. Para surpresa de Camila, a reação foi de apoio.
— Se é para ficar melhor e mais seguro, vale a pena esperar — disse Helena, sorrindo.
O Florescer estava sendo testado.
E resistia.
Naquela semana, Camila percebeu algo importante: liderança não era ausência de medo. Era seguir mesmo sentindo medo.
A obra continuava.
O sonho também.
Continua... Aguarde o capítulo 170.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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