Capítulo 167: Entre Sonhos e Martelos
A reforma começou numa segunda-feira ensolarada.
Logo cedo, o barulho dos primeiros martelos ecoou pelo prédio ao lado do Studio Florescer Crossdresser. O espaço vazio que antes era apenas promessa agora estava cercado por sacos de cimento, rolos de fios elétricos e placas de drywall encostadas nas paredes.
Camila atravessou a calçada quase correndo, segurando um capacete improvisado que o engenheiro havia entregue minutos antes. Usava um vestido jeans claro e tênis brancos — pela primeira vez trocando as sapatilhas por algo mais prático.
— Nunca pensei que ficaria tão feliz ouvindo barulho de obra — comentou, rindo.
Anna e Roberta estavam logo atrás, analisando a planta impressa do novo espaço.
O arquiteto explicava os detalhes com calma:
— A previsão é de cerca de três meses para a obra ficar completamente pronta. Precisamos levantar as divisórias das baias individuais, estruturar as salas fechadas para reuniões online, instalar isolamento acústico e adaptar a parte elétrica para comportar mais estações de trabalho.
Camila assentiu, absorvendo cada palavra.
Três meses.
Parecia muito… e pouco ao mesmo tempo.
Enquanto caminhavam pelo espaço ainda cru, começaram a visualizar tudo novamente — só que agora com medidas reais.
— Aqui ficam as baias individuais — disse Roberta, apontando para a lateral esquerda. — Vamos fazer divisórias modernas, mas que mantenham privacidade total.
— No centro, as mesas compartilhadas — completou Camila. — Um ambiente mais aberto, para quem prefere interação.
Anna indicou o fundo do salão.
— E ali, as salas reservadas para reuniões online. Com porta, isolamento e iluminação adequada.
Camila sorriu ao imaginar o último detalhe.
— E não esqueçam da sala de atendimento terapêutico ou coaching. Quero algo acolhedor, com poltronas confortáveis e uma iluminação suave. Um lugar onde as pessoas possam falar sobre suas histórias sem medo.
O arquiteto anotava tudo.
Apesar da empolgação, os desafios começaram a surgir já nos primeiros dias. Ajustes no orçamento, pequenas mudanças na planta, decisões sobre materiais que afetariam diretamente o custo final.
Numa tarde mais tensa, Camila sentou-se no meio do espaço empoeirado, observando os operários trabalharem.
— Dá um frio na barriga — confessou a Anna. — É um investimento grande. E três meses é tempo suficiente para muita coisa acontecer.
Anna sentou-se ao lado dela.
— Crescer sempre assusta. Mas olha para tudo que já superamos.
Roberta se aproximou com a planilha nas mãos.
— As contas estão sob controle. Se mantivermos o ritmo das baias atuais e da cafeteria, conseguimos atravessar esse período com segurança.
Camila respirou fundo.
Ela estava aprendendo algo novo: liderar não era apenas ter ideias bonitas. Era acompanhar obra, negociar orçamento, resolver imprevistos e, ao mesmo tempo, continuar sendo o coração acolhedor do Studio.
Nos dias seguintes, passou a dividir seu tempo entre os dois espaços. Atendia clientes, organizava agendas e, nos intervalos, atravessava a calçada para acompanhar o andamento da reforma.
As clientes já comentavam animadas.
— Eu estou na lista de espera para uma baia nova! — disse uma delas, sorrindo.
— Mal posso esperar para ver como vai ficar — comentou outra.
À noite, exausta, Camila dividia suas preocupações com Rafael na kitnet.
— Três meses passam rápido — ele dizia, segurando suas mãos. — E você não está sozinha nisso.
Ela sabia que não estava.
Ao final da primeira semana de obra, já era possível ver as primeiras estruturas de divisórias tomando forma. O sonho começava a ganhar paredes.
Camila ficou alguns minutos parada, observando.
O Florescer estava crescendo… e ela estava crescendo junto.
Continua... Aguarde o capítulo 168.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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