Capítulo 148: O Nome Que Sempre Morou Em Mim
Naquela noite, Camila demorou mais do que o habitual para adormecer. Deitada na cama da kitnet, vestindo uma camisola leve, observava o teto enquanto as imagens do dia se misturavam aos sentimentos que insistiam em ficar acordados. As conversas com Anna e Roberta ecoavam em sua mente, não como dúvida, mas como confirmação.
Ela não estava mais procurando quem era. Estava apenas aceitando.
Na manhã seguinte, chegou ao Studio Florescer Crossdresser mais cedo do que todos. Caminhou pelo espaço ainda silencioso, tocando de leve as mesas, o balcão, as paredes recém-pintadas do novo ambiente das baias. Havia algo simbólico naquele lugar em transformação — assim como ela.
Quando Anna e Roberta chegaram, encontraram Camila sentada à mesa central, com uma xícara de café ainda intacta nas mãos.
— Eu tomei uma decisão — disse ela, antes mesmo que perguntassem qualquer coisa.
As duas se sentaram, em silêncio respeitoso.
— Quero começar a viver oficialmente como a mulher que eu sou — continuou Camila, com a voz firme, ainda que emocionada. — Quero usar meu nome social em tudo, na vida… e iniciar o processo para mudar meus documentos.
Anna levou a mão ao peito, visivelmente tocada.
— Isso é enorme, Camila.
— E é lindo — completou Roberta, sorrindo com doçura. — E totalmente coerente com tudo o que você já vive.
Camila respirou fundo.
— Eu sei que não é simples. Tem burocracia, medo, etapas… mas eu não quero mais me esconder atrás de versões menores de mim.
Anna segurou suas mãos.
— Aqui, você já é Camila. Sempre foi. Vamos ajustar o que for preciso. Seu nome nos registros internos e documentações… no restante já usamos o seu nome real: Camila.
Roberta assentiu.
— E vamos te apoiar em cada passo. Não só como donas do Studio, mas como mulheres que acreditam em você.
De noite, naquele mesmo dia, Camila decidiu fazer algo que vinha adiando havia semanas. Ligou para os pais.
A conversa começou com trivialidades, mas logo o silêncio pediu coragem. Ela falou devagar, com o coração aberto. Contou como estava vivendo, como se sentia, como já não conseguia mais separar quem era em casa e quem era no mundo.
— Eu sou feliz assim — disse, com a voz embargada. — E queria saber… se vocês conseguem caminhar comigo.
Do outro lado da linha, houve uma pausa. Longa o suficiente para doer. Curta o bastante para não quebrá-la.
— Filha… — disse a mãe, com a voz emocionada. — A gente só quer te ver bem. Se esse é o caminho que te faz inteira… então é o caminho certo.
O pai falou logo depois, com firmeza serena:
— Você sempre foi nossa filha. Nada muda isso. Se é assim que você se reconhece, a gente aprende junto.
Camila chorou. Não de medo. De alívio.
Quando desligou, sentiu algo se acomodar dentro do peito. Não era o fim de um processo. Era o começo de uma vida mais honesta consigo mesma.
Naquela noite, ao fechar os olhos, Camila sorriu. Pela primeira vez, o futuro não parecia assustador. Parecia possível.
Continua... Aguarde o capítulo 148.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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