Capítulo 142: Entre o Silêncio e o Espelho
No dia seguinte à visita da jornalista, o Studio Florescer Crossdresser abriu com um clima diferente — mais atento, mais introspectivo. Nada havia mudado no espaço físico, mas algo circulava no ar, como quando uma pergunta importante ainda não foi respondida em voz alta.
Camila percebeu logo cedo.
Enquanto preparava as baias e organizava a agenda, notou olhares mais demorados, conversas que começavam e paravam, sorrisos que vinham acompanhados de uma ponta de dúvida. Não era medo exatamente. Era consciência.
Uma das clientes antigas se aproximou do balcão, o copo de café entre as mãos.
— Camila… aquela moça de ontem… ela vai escrever mesmo sobre o Studio?
— Vai — respondeu com suavidade. — Mas só sobre o que a gente autorizou. Ninguém aqui vai ser exposta.
A cliente assentiu, respirando aliviada.
— É estranho… parte de mim quer que o mundo saiba que isso existe. A outra parte só quer continuar vindo em paz.
Camila sorriu com compreensão.
— As duas coisas podem coexistir. E nenhuma é obrigação.
Mais tarde, perto das baias, outra conversa surgiu. Uma cliente nova, ainda insegura, comentou em voz baixa que tinha visto algo sobre o Studio nas redes — apenas uma menção vaga, sem fotos, sem nomes — e que isso havia sido suficiente para ela criar coragem e entrar.
— Eu não sabia que dava pra existir assim — confessou. — Sem ter que se explicar o tempo todo.
Camila sentiu um nó bom na garganta. Aquilo era o equilíbrio delicado que tanto buscavam: ser farol sem virar holofote.
No meio da tarde, Anna e Roberta chamaram Camila para uma conversa rápida na mesa do fundo.
— A gente pensou bastante ontem à noite — disse Anna. — Talvez seja hora de escrevermos nossas próprias regras de comunicação. Um manifesto pequeno. Algo que diga quem somos… e quem não somos.
Roberta completou:
— Algo que deixe claro que visibilidade aqui é escolha. Nunca exigência.
Camila gostou da ideia imediatamente.
— Um texto que seja mais espelho do que vitrine.
O dia seguiu assim: entre cafés, atendimentos e pequenas trocas que carregavam mais significado do que palavras longas. No fim do expediente, Camila caminhou pelo Studio já vazio. Passou a mão pelo balcão, pelas paredes recém-pintadas, pelas portas das baias fechadas.
Pensou em quantas histórias ainda estavam em silêncio ali dentro — e como aquele silêncio também era uma forma de cuidado.
Quando apagou as luzes, sentiu algo raro: não a pressão de decidir tudo, mas a tranquilidade de saber que não precisava decidir sozinha.
Algumas histórias pedem palco. Outras pedem abrigo.
E o Florescer seguia aprendendo a oferecer ambos.
Continua... Aguarde o capítulo 143.
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