Capítulo 141: Até Onde Contar uma História
O aviso chegou logo pela manhã.
Camila ainda organizava algumas pastas das baias quando Anna se aproximou, o celular na mão, expressão séria — não preocupada, mas atenta.
— Ela confirmou — disse em voz baixa. — A jornalista chega hoje à tarde.
Camila sentiu o estômago apertar de leve. Sabia que esse momento chegaria, mas quando chega de verdade, o corpo reage antes da razão.
— Ela vem pra conhecer o Studio… ou pra contar a história dele? — perguntou.
Roberta, que ajeitava o balcão, se virou devagar.
— As duas coisas. E é aí que mora o perigo.
Durante o dia, o Studio Florescer Crossdresser funcionou normalmente. Cafés servidos, risadas espalhadas, clientes entrando e saindo. As baias estavam cheias, e Camila circulava com a atenção redobrada, avisando discretamente que à tarde haveria uma visita externa, perguntando quem se sentia confortável, quem preferia não aparecer, quem queria total discrição.
Ninguém questionou. Algumas sorriram, outras agradeceram em silêncio. A confiança era palpável — e isso só aumentava o peso da responsabilidade.
No meio da tarde, a jornalista chegou.
Vestia roupas simples, trazia um caderno e um gravador pequeno na bolsa. Antes mesmo de se apresentar oficialmente, fez algo que surpreendeu Camila: pediu para conversar primeiro, longe do salão.
Sentaram-se na mesa mais reservada. Anna e Roberta também ficaram.
— Quero deixar algo claro desde o início — disse a jornalista, com voz firme e calma. — Não vim atrás de histórias sensacionalistas. Vim entender um espaço que está mudando vidas. Mas só conto o que vocês decidirem contar.
Camila sentiu o peito aliviar um pouco.
— Aqui, muitas pessoas ainda estão se construindo — explicou. — Nem todo mundo quer ser visto. Nem toda história quer virar manchete.
A jornalista assentiu.
— Então vamos falar do lugar. Do projeto. Do cuidado. E, se alguém quiser falar de si, que seja por escolha, não por exposição.
Caminharam juntas pelo Studio. A jornalista observava mais do que perguntava. Anotava detalhes: a plaquinha de boas-vindas, o tom das luzes, o jeito como Camila falava baixo ao se aproximar das baias, pedindo licença antes de entrar.
— Você coordena esse espaço? — perguntou em dado momento.
Camila hesitou por um segundo.
— Eu cuido dele… junto com elas.
Anna sorriu ao ouvir aquilo.
Quando a visita terminou, nenhuma foto foi tirada. Nenhum nome foi anotado sem permissão. A jornalista agradeceu, emocionada.
— Vocês não têm só um negócio — disse antes de ir embora. — Têm um pacto de respeito. Isso é raro.
Depois que a porta se fechou, o silêncio durou alguns segundos.
— Foi melhor do que eu imaginei — disse Roberta.
— Porque a gente soube dizer até onde ir — completou Anna.
Camila respirou fundo. Sentia-se cansada, mas inteira.
No fim do dia, Rafael passou para buscá-la. Ela contou tudo enquanto caminhavam devagar.
— Teve medo? — ele perguntou.
— Tive — respondeu sincera. — Mas entendi que proteger também é uma forma de coragem.
Rafael sorriu.
— E você está ficando muito boa nisso.
Camila olhou para o Studio uma última vez antes de desligar as luzes. Algumas histórias já estavam prontas para serem contadas. Outras ainda precisavam de silêncio.
E tudo bem.
Continua... Aguarde o capítulo 142.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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