Capítulo 140: Quando as Portas se Abrem com Cuidado
A reunião foi marcada para a noite, após o fechamento do Studio Florescer Crossdresser. Camila passou o dia inteiro com aquela expectativa silenciosa no peito — uma mistura de curiosidade, responsabilidade e um leve frio na barriga. Não era apenas mais uma conversa: era a primeira vez que alguém de fora vinha oficialmente conhecer o Florescer com intenção de parceria.
No começo da noite, quando a arquiteta chegou, Anna e Roberta estavam ao lado de Camila. A mulher se apresentou de forma simples, sorriso calmo, olhar atento. Trazia uma pasta fina nas mãos e, antes mesmo de falar sobre projetos, pediu licença para observar o espaço.
— Eu gosto de entender o lugar antes de propor qualquer coisa — explicou. — Os espaços também falam.
Ela caminhou pela cafeteria, tocou levemente o balcão, observou as mesas, a circulação, os detalhes pensados com carinho. Depois seguiu para a área das baias. Camila acompanhava tudo em silêncio, sentindo um certo orgulho — e também uma pontada de proteção.
— Aqui… — disse a arquiteta, com a voz baixa — tem algo muito raro. Não é só funcional. É seguro. É gentil.
As três trocaram um olhar discreto.
Sentaram-se então na mesa do fundo. A arquiteta abriu a pasta, mostrando alguns esboços simples, nada grandioso. Falou de melhorias possíveis a longo prazo: melhor isolamento acústico, soluções de iluminação que respeitassem privacidade, circulação pensada para não expor ninguém. Tudo feito em etapas, sem pressa.
— Não estou aqui para “transformar” o Studio — deixou claro. — Estou aqui para escutar e, se fizer sentido, ajudar a sustentar o crescimento sem apagar a essência.
Camila respirou aliviada. Era exatamente o tipo de abordagem que ela esperava — e temia não encontrar.
Ainda assim, foi Camila quem fez a pergunta mais difícil.
— Como garantir que, com mais visibilidade, nossas clientes continuem protegidas? Que ninguém vire vitrine?
A arquiteta fechou a pasta e respondeu sem hesitar:
— Estabelecendo limites claros. Nem tudo precisa ser mostrado. Nem toda história precisa ser contada. Arquitetura também é sobre proteger o invisível.
Anna sorriu. Roberta assentiu devagar.
Decidiram não fechar nada naquele dia. Ficaram de conversar novamente, com calma. A arquiteta saiu agradecendo, visivelmente tocada pelo projeto.
Quando a porta se fechou, Camila se recostou na cadeira, soltando o ar que parecia preso desde cedo.
— Acho que demos um passo certo — disse Roberta.
— Um passo cuidadoso — completou Anna.
Camila sorriu.
— Um passo nosso.
Mais tarde, Rafael passou para buscá-la. Camila contou como foi a reunião enquanto caminhavam.
— E como você se sentiu? — ele perguntou.
Ela pensou por um instante.
— Forte. Mas consciente. Pela primeira vez, senti que crescer não significa perder o controle… se a gente souber onde quer chegar.
Rafael apertou a mão dela com carinho.
— Você está aprendendo a liderar sem deixar de ser você.
Camila sorriu. Sabia que novos desafios viriam. Mas agora tinha certeza de algo essencial: o Florescer podia crescer — desde que cada porta aberta fosse atravessada com cuidado.
Continua... Aguarde o capítulo 141.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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