Capítulo 130: Entre Regras e Confiança
O caderno de Camila já não era apenas um repositório de ideias — tornara-se um mapa. Naquela manhã, ela chegou cedo ao Studio Florescer Crossdresser e espalhou folhas impressas sobre a mesa maior, ao lado do balcão. Anna e Roberta se aproximaram com canecas de café quente, curiosas.
— Então… — disse Anna, sentando-se — chegou a hora de colocar tudo no papel.
Camila assentiu.
— Regras não para limitar, mas para proteger. Todas.
Durante a primeira hora, as três trabalharam em silêncio atento, quebrado apenas pelo riscar de canetas e pelo virar de páginas. O Termo de Uso das Baias começava a ganhar forma: confidencialidade absoluta; respeito à identidade e ao nome social; horários claros; política de visitas; uso responsável do espaço; cuidado com o vestiário; silêncio e discrição; e, sobretudo, uma cláusula simples e firme sobre segurança — ninguém seria exposta, fotografada ou identificada sem consentimento explícito.
— Isso aqui é essencial — observou Roberta, apontando um trecho. — Precisamos deixar claro que o Studio não é palco. É abrigo.
Camila concordou.
— E também um espaço de trabalho. A ideia é que a pessoa venha inteira, mas focada.
No meio da manhã, enquanto ajustavam os últimos detalhes, Anna colou discretamente um aviso na porta interna do novo espaço: “Atendimento de orientação sobre as baias — hoje, a partir das 14h.”
As primeiras conversas foram emocionadas, mas tranquilas. Camila explicava com voz serena, acolhia dúvidas, anotava necessidades. Até que, perto do fim da tarde, surgiu a primeira situação difícil.
Uma pessoa interessada pediu algo fora do combinado: queria usar a baia para receber visitas constantes e circular livremente pela cafeteria, montada, em horários de pico — não por trabalho, mas por visibilidade. O pedido veio acompanhado de um sorriso confiante, quase desafiador.
Camila sentiu o coração acelerar. Era o teste que ela temia.
Respirou fundo.
— Eu entendo o desejo de existir sem esconderijos — começou, com cuidado. — Mas este espaço foi pensado para quem precisa de privacidade e foco. A cafeteria continua sendo aberta, acolhedora… as baias, não. Se abrirmos exceção aqui, quebramos a confiança de quem depende do silêncio.
O sorriso do outro lado vacilou.
— Então vocês estão impondo limites?
— Estamos cuidando de pessoas — respondeu Camila, firme e gentil. — Inclusive de você. Se esse formato não for o ideal agora, podemos pensar juntos em alternativas. Mas as regras precisam valer para todas.
Houve um instante de tensão. Depois, um aceno de compreensão.
— Eu respeito. Vou pensar.
Quando a pessoa saiu, Camila ficou parada por alguns segundos, sentindo o peso da decisão. Anna se aproximou e a abraçou de lado.
— Foi difícil — disse Anna. — E foi certo.
Roberta sorriu, orgulhosa.
— Você acabou de proteger um projeto inteiro.
Mais tarde, Rafael passou para buscá-la. Encontrou Camila cansada, mas com os olhos claros.
— Primeiro dia como coordenadora de verdade? — brincou.
Ela riu, encostando a cabeça no ombro dele.
— Primeiro dia entendendo que acolher também é dizer não.
Ao fechar o Studio, o termo de uso estava impresso, assinado pelas três, e guardado na pasta azul do balcão. As regras estavam ali — não como muros, mas como raízes.
Camila saiu para a noite sentindo que o florescer, agora, exigia constância. E ela estava pronta.
Continua... Aguarde o capítulo 131.
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