Capítulo 124: A Primeira Chave
O cheiro de tinta ainda era leve no ar quando Camila entrou no novo espaço naquela manhã. As obras haviam terminado na véspera, e embora tudo estivesse pronto, ela sentia que ainda faltava algo invisível — aquele detalhe que não se mede com régua, mas com sensibilidade.
Caminhou devagar pelo corredor recém-criado, passando pelas portas das baias. Cada uma delas tinha uma pequena placa discreta, sem nomes, apenas números. Privacidade era parte essencial do projeto. Abriu a porta da primeira baia e observou com atenção: a mesa clara, a cadeira confortável, as gavetas vazias à espera de histórias, as tomadas organizadas, o ponto de internet testado pela terceira vez na noite anterior.
Sobre a mesa, Camila colocou um pequeno vaso com flores delicadas. Não estava no projeto inicial, mas parecia certo. Florescer sempre começava nos detalhes.
Pouco depois, Anna e Roberta chegaram, trazendo café e aquele entusiasmo silencioso de quem sabe que algo importante está prestes a acontecer.
— Dormi quase nada — confessou Roberta, rindo. — Fiquei pensando se estava tudo mesmo no lugar.
— Está — respondeu Camila, com um sorriso calmo. — E, se não estiver, a gente ajusta. Como sempre.
Antes da abertura oficial da cafeteria, Camila foi até o vestiário dos fundos para conferir se estava impecável. Espelhos limpos, iluminação suave, cabides extras, um banco confortável. Era ali que muitas transformações aconteceriam — não só externas, ela sabia.
O relógio marcava poucos minutos para o horário combinado quando o celular vibrou.
“Estou aqui fora.”
O coração de Camila acelerou.
Foi até a porta lateral, respirou fundo e abriu. Ele estava ali, novamente de terno, pasta na mão, o mesmo olhar tímido… mas agora havia algo diferente: uma decisão silenciosa estampada no rosto.
— Bom dia — disse ele, com um sorriso contido.
— Bom dia — respondeu Camila, com a voz firme e acolhedora. — Seja bem-vindo. De verdade.
Ela o conduziu até o vestiário, explicou calmamente cada espaço, cada detalhe, sem pressa. Deixou-o à vontade, respeitando o tempo dele, e saiu, fechando a porta com cuidado.
Enquanto aguardava do lado de fora, Camila sentiu um misto de ansiedade e emoção. Aqueles minutos pareciam longos demais. Anna se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
— Confia — disse apenas.
Quando a porta se abriu novamente, Camila se virou.
Ali já não estava o homem de terno.
À sua frente, havia uma mulher ainda um pouco insegura nos passos, mas com os olhos brilhando como quem finalmente se reconhece no espelho. Um vestido simples, maquiagem discreta, postura ainda em construção — mas real.
Camila sorriu, sentindo os olhos marejarem.
— A sua baia está pronta — disse, com delicadeza.
Ela o acompanhou até o espaço. Entregou-lhe a chave, pequena, simbólica, pesada de significado.
— Esse espaço é seu — completou. — Use como precisar. Do seu jeito.
Ele segurou a chave por alguns segundos antes de entrar.
— Você não imagina… — começou, a voz falhando. — O que isso representa pra mim.
— Eu imagino, sim — respondeu Camila, com suavidade. — Mais do que você pensa.
Quando a porta da baia se fechou, Camila ficou parada por um instante, absorvendo tudo. O som distante da cafeteria, o clique da fechadura, o início de algo que não tinha volta.
O Studio Florescer Crossdresser tinha, oficialmente, inaugurado muito mais do que um novo serviço. Tinha aberto espaço para vidas inteiras respirarem.
Continua... Aguarde o capítulo 125.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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