Capítulo 121: Entre Poeira e Promessas
O som das obras já fazia parte do Studio Florescer Crossdresser. Logo cedo, antes mesmo do primeiro café ser passado, o barulho ritmado das ferramentas ecoava pelo espaço ao lado, misturando-se ao cheiro de madeira cortada, tinta fresca e expectativa. Onde antes havia apenas uma loja vazia, agora surgiam divisórias, marcações no chão, conduítes aparentes — sinais claros de que o projeto havia saído do papel.
Camila observava tudo com atenção. Em alguns momentos, o cenário parecia caótico demais para combinar com a delicadeza do que estava sendo criado. Poeira no ar, caixas empilhadas, paredes ainda inacabadas. Ainda assim, ela conseguia enxergar além: via mesas organizadas, cadeiras ocupadas, mulheres trabalhando em silêncio, concentradas, sendo exatamente quem são.
— Vai dar certo — disse Anna, aproximando-se, como se tivesse lido seus pensamentos. — Toda obra começa assim… bagunçada.
Camila sorriu. Sabia que era verdade.
Durante a manhã, enquanto Roberta conversava com o responsável pela elétrica e ajustava prazos no cronograma, Camila se afastou para um canto mais tranquilo da cafeteria. O caderno do projeto estava aberto à sua frente, mas seus olhos repousaram no celular. Havia uma ligação que ela vinha adiando desde o dia anterior.
Respirou fundo antes de discar.
Do outro lado da linha, a voz do homem de terno soou surpresa — e imediatamente reconheceu Camila. Ela se apresentou com cuidado, lembrando brevemente da conversa que haviam tido no Studio, semanas antes. Falou do quanto aquela troca havia sido importante, do quanto suas palavras haviam ficado com ela.
— Eu queria te contar que a ideia saiu do papel — disse, com suavidade. — As obras já começaram. Estamos criando um espaço de trabalho privativo, seguro… pensado exatamente para quem precisa conciliar a vida que tem com a mulher que é.
Houve silêncio. Um silêncio denso, carregado de emoção contida.
Camila continuou:
— Antes mesmo de divulgarmos oficialmente, eu quis te ligar. Você foi o pivô de tudo isso. Gostaria de te oferecer a oportunidade de conhecer o espaço… e, se fizer sentido pra você, de alugar uma das baias. Trabalhar montada, com tranquilidade, no seu tempo.
A resposta veio baixa, quase trêmula. Ele agradeceu, disse que nunca imaginou ouvir algo assim. Falou do medo, da rotina apertada, das concessões diárias — mas também da esperança que, naquele momento, parecia finalmente ter um lugar onde pousar.
— Eu gostaria de conhecer, sim — disse ele, depois de alguns segundos. — Só de saber que existe… já muda tudo.
Quando desligou, Camila ficou alguns instantes parada, sentindo o peso e a beleza daquela responsabilidade. Não era apenas um espaço físico que estava sendo construído. Eram possibilidades.
Ao longo do dia, a obra avançou com pequenos imprevistos: uma tomada fora do lugar, uma divisória que precisou ser refeita, ajustes no orçamento. Nada grave, mas o suficiente para lembrar que sonhos também exigem paciência e escolhas práticas. Anna anotava tudo com cuidado; Roberta recalculava números e prazos, mantendo os pés no chão.
No fim da tarde, as três caminharam juntas pelo espaço em construção. O sol entrava pelas janelas ainda sem acabamento, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar.
— Ainda falta muito — comentou Roberta.
— Mas já dá pra sentir — completou Anna. — Esse lugar vai mudar vidas.
Camila assentiu em silêncio. Pensava no homem do telefone, nas clientes que haviam se emocionado nos últimos dias, e nela mesma — na jovem que um dia chegou ao Studio cheia de medo, sem imaginar que ajudaria a construir algo tão grande.
Enquanto fechavam a cafeteria, ficou claro que aquela nova fase traria desafios, decisões difíceis e ajustes constantes. Mas também traria sentido. E pertencimento.
Continua... Aguarde o capítulo 122.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
Capítulos novos todos os dias.

Comentários
Postar um comentário