Capítulo 114: Quando a Ideia Ganha Voz
O relógio marcava o fim do expediente.
As últimas xícaras foram lavadas, as mesas organizadas e as luzes do salão principal ficaram mais suaves, criando aquele clima acolhedor que sempre permanecia no Studio Florescer Crossdresser depois de um dia intenso.Camila respirou fundo.
Observou Anna e Roberta conversando perto do balcão, ainda animadas com o movimento do dia. Caminhou até elas com o coração acelerado, carregando dentro de si algo grande demais para guardar sozinha.
— Meninas… — começou, com a voz mais séria do que o habitual. — A gente precisa conversar. É importante.
Anna e Roberta se entreolharam imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Anna, já tensa.
— Você está bem? — completou Roberta, largando o pano que segurava.
Camila percebeu o susto e quase riu, mas manteve o suspense por mais alguns segundos.
— Está tudo bem… mas é algo sério. Vamos sentar?
As três se acomodaram em uma das mesas. Camila organizou os pensamentos e, então, começou a contar tudo: o homem de terno que havia entrado na cafeteria naquele dia, o olhar admirado, a conversa tímida, o desejo reprimido, a falta de espaço, de privacidade, de oportunidade.
Anna e Roberta ouviam em silêncio absoluto.
Camila então passou a explicar sua ideia com calma, detalhe por detalhe. Falou das baias de trabalho, da privacidade, da possibilidade de crossdressers e pessoas trans trabalharem montadas com tranquilidade, da utilização do vestiário, dos diferentes formatos de aluguel, da internet oferecida pelo próprio Studio.
— Eu não falei nada na hora porque precisava amadurecer — concluiu Camila. — Mas eu senti que isso podia ser algo transformador. Não só pra ele… mas pra muita gente.
Por alguns segundos, houve silêncio.
Então Anna levou a mão ao peito.
— Camila… isso é simplesmente maravilhoso.
— É genial — completou Roberta, com os olhos brilhando. — É acolhedor, necessário e totalmente alinhado com tudo o que o Studio representa.
Camila sorriu, sentindo o coração aquecer.
Mas Anna franziu levemente a testa, olhando ao redor.
— Só tem um problema… — disse, pensativa. — A gente não tem espaço suficiente aqui dentro da cafeteria pra fazer isso do jeito que merece.
O sorriso de Camila vacilou por um instante.
Foi então que Roberta se endireitou na cadeira, como se tivesse tido um estalo.
— Espera… — disse devagar. — A loja ao lado.
Anna arregalou os olhos.
— A que está passando o ponto?
— Essa mesma — confirmou Roberta. — O espaço é praticamente do mesmo tamanho que o nosso. Dá pra integrar, criar uma área totalmente separada da cafeteria. Seria perfeito.
Camila sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— A gente poderia conversar com a dona… ver condições, valores… — sugeriu, já empolgada. — Se der certo, dá pra colocar tudo isso em prática de forma estruturada.
Anna levantou-se da cadeira, claramente animada.
— Camila, você teve uma visão incrível. Isso pode mudar a vida de muita gente.
Roberta segurou a mão dela.
— E ainda expandir o Studio de um jeito lindo e coerente com a nossa essência.
Camila sentiu os olhos marejarem.
Não era apenas alegria — era orgulho. Orgulho de si mesma, da sua trajetória, do quanto havia crescido. De perceber que sua vivência, suas dores e conquistas agora se transformavam em oportunidade para outras pessoas.
— Eu só queria retribuir tudo o que o Studio fez por mim — disse, emocionada. — E ajudar outras pessoas a realizarem esse sonho… de serem quem são, mesmo que por algumas horas.
Anna abraçou Camila com força.
— Você já está fazendo isso, minha linda.
Roberta se juntou ao abraço.
— E ainda vamos fazer muito mais.
Ali, entre paredes que já haviam testemunhado tantos floresceres, uma nova semente era plantada.
E todas sabiam: aquele era apenas o começo de uma nova fase do Studio Florescer Crossdresser — ainda mais inclusiva, ainda mais transformadora. 🌷
Continua... Aguarde o capítulo 115.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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