Capítulo 86: No Silêncio da Noite
A noite já havia caído quando Rafael decidiu ir embora.
A luz amarela do corredor refletia suavemente em seu rosto enquanto ele ainda segurava a mão de Camila na porta da kitnet, como se nenhum dos dois quisesse quebrar o encanto daquele domingo.
— Foi um dia lindo… — ele disse, com a voz baixa, quase íntima.
Camila sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de significado.
— Foi sim… — respondeu. — Muito mais do que eu imaginava.
Ele acariciou o rosto dela com o dorso dos dedos, delicado, atento, como se quisesse gravar sua expressão na memória.
Depois aproximou-se e lhe deu um beijo lento, sereno, desses que dizem mil coisas sem pronunciar uma palavra.
Quando se afastou, ainda manteve o olhar preso no dela por um instante que pareceu se estender.
— Boa noite, Camila.
— Boa noite, Rafael.
Ela acompanhou com o olhar enquanto ele descia as escadas, e só fechou a porta quando o som dos passos desapareceu.
O peso leve da solidão boa
Assim que voltou para dentro, a kitnet pareceu diferente.
O ar ainda guardava o perfume suave que ela havia passado, misturado ao aroma discreto do almoço e ao calor recente dos dois juntos cama.
Camila apoiou as costas na porta fechada e deixou escapar um suspiro longo — não de cansaço, mas de emoção.
Um suspiro que parecia carregar tudo o que ela havia sentido naquela tarde.
Caminhou devagar até o sofá e se sentou, passando os dedos pela manta arrumada de manhã.
A lembrança recente do abraço de Rafael ainda parecia ali, impressa no tecido.
As reflexões que chegam quando o coração está calmo
No silêncio da noite, Camila encostou a cabeça no encosto e fechou os olhos.
As imagens do dia passaram com delicadeza:
o sorriso dele ao chegar, as conversas à mesa, os olhares que se encontravam sem esforço, o toque das mãos, o carinho devagar…
e, por fim, aquele momento em que ela simplesmente deixou de ter medo.
Por tanto tempo, Camila havia acreditado que nunca seria vista como mulher por alguém de fora do seu pequeno mundo.
Por tanto tempo, tinha carregado a vergonha de ser quem era — medo de rejeição, de ironia, de não ser suficiente.
E agora, ali, com o vestido branco ainda acompanhando seus movimentos suaves, ela sentia que algo tinha mudado.
Rafael a olhava como mulher.
Falava com ela como mulher.
A desejava, respeitava e acolhia como mulher.
E, mais importante:
ela mesma estava começando a se ver assim sem hesitação.
— Eu me senti eu… de verdade… — murmurou para o vazio acolhedor da kitnet.
Um amor que nasce devagar
Camila levantou-se, caminhou até o quarto e sentou-se na beira da cama.
Tirou a sandália, acariciando os próprios tornozelos com delicadeza, e sorriu sozinha pensando no momento em que ambos chegavam juntos ao clímax naquela tarde.
— Tão simples… e tão intenso — pensou.
Pela primeira vez em muito tempo, o medo que antes ocupava tanto espaço dentro dela parecia pequeno, quase silencioso.
O que ecoava agora era outra coisa:
uma ternura profunda, um afeto quente, um início de amor que crescia como algo que ela não podia — e nem queria — deter.
A entrega verdadeira
Deitou-se por fim, ainda com o vestido leve, abraçando o travesseiro com calma.
Ficou olhando o teto por longos minutos, respirando fundo, sentindo cada parte da própria pele como se reconhecesse um novo território.
Ela não havia apenas se entregado a um momento.
Havia se entregado à possibilidade de ser amada.
E isso, para alguém que passou a vida inteira com medo da própria verdade, era maior do que qualquer gesto físico poderia ser.
Antes de adormecer, Camila sussurrou para si mesma:
— Talvez… talvez seja amor mesmo.
Então fechou os olhos.
E, no silêncio da noite, adormeceu com um sorriso — o sorriso de quem finalmente começa a acreditar que merece tudo aquilo que está vivendo.
Continua... Aguarde o capítulo 87.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
Capítulos novos todos os dias.

Comentários
Postar um comentário