Capítulo 168: Crescer Sem Perder a Essência
Com a obra avançando a cada dia, o assunto “expansão” passou a fazer parte das conversas diárias no Studio Florescer Crossdresser.
O barulho constante do outro lado da parede já havia se tornado parte da rotina. Martelos, furadeiras e o vai e vem dos operários marcavam o ritmo de um sonho em construção.
Mas, junto com a empolgação, vieram também algumas inquietações.
Numa tarde tranquila, enquanto servia café para duas clientes antigas, Camila percebeu um tom diferente na voz de uma delas.
— Eu fico feliz pelo crescimento de vocês — disse Helena, mexendo devagar a colher na xícara. — Mas espero que o Studio não mude demais.
Camila inclinou a cabeça, atenta.
— Mude como?
— Ah… sabe… eu gosto desse clima acolhedor. Tenho medo de que, ficando maior, perca essa sensação de casa.
Aquela frase ficou ecoando dentro dela.
Mais tarde, outra cliente comentou algo semelhante:
— Vai ficar moderno demais? Não quero que vire um espaço frio, corporativo…
Camila ouviu tudo com o coração aberto. Não havia críticas — apenas medo de perder o que já amavam.
No fim do expediente, ela chamou Anna e Roberta para conversar.
Sentaram-se na cafeteria vazia, com as luzes mais baixas e o cheiro de café ainda no ar.
— Algumas meninas estão com receio — começou Camila. — Têm medo de que o crescimento mude o clima do Studio.
Anna apoiou os cotovelos na mesa.
— Isso é natural. Toda mudança traz insegurança.
Roberta concordou.
— A pergunta é: como crescemos sem perder nossa essência?
O silêncio que se seguiu não era de dúvida, mas de reflexão.
Camila pensou na sala terapêutica que haviam planejado, nas baias individuais com mais privacidade, nas mesas compartilhadas cheias de trocas e conversas. Pensou em tudo o que o Florescer representava desde o início: acolhimento, respeito, liberdade.
— Talvez a resposta esteja justamente nisso — disse ela. — Não estamos crescendo para virar algo diferente. Estamos crescendo para acolher mais pessoas da mesma forma.
Anna sorriu lentamente.
— Então precisamos deixar isso claro.
Nos dias seguintes, decidiram fazer algo simples, mas poderoso: começaram a conversar abertamente com as clientes sobre o projeto. Mostraram a planta, explicaram cada ambiente, falaram sobre a sala de atendimento terapêutico e a importância de criar espaços mais seguros e confortáveis. Principalmente, sobre a fachada discreta do novo espaço que manterá o ambiente ainda mais seguro.
Camila fazia questão de reforçar:
— O Florescer vai continuar sendo o que sempre foi. Só vai ter mais espaço para florescer.
Aos poucos, o clima mudou.
As mesmas clientes que antes demonstravam receio passaram a fazer perguntas curiosas:
— Vai ter iluminação mais suave nas salas fechadas?
— A sala de coaching vai ter poltronas confortáveis mesmo?
— As baias vão ser personalizáveis?
O medo deu lugar à participação.
Uma tarde, enquanto observava as estruturas já quase prontas do outro lado, Camila sentiu algo diferente. Não era mais apenas ansiedade. Era maturidade.
Ela estava aprendendo que liderar também significava ouvir, ajustar, tranquilizar.
Naquela noite, caminhando de volta para a kitnet, comentou com Rafael:
— Crescer é mais emocional do que estrutural.
Ele sorriu.
— E você está conduzindo isso com o coração.
Camila sabia que ainda haveria desafios nos meses seguintes. A obra levaria cerca de três meses no total, e muita coisa ainda precisava ser decidida.
Mas uma certeza estava firme dentro dela:
O Florescer não perderia sua essência.
Porque a essência não estava nas paredes.
Estava nas pessoas.
Continua... Aguarde o capítulo 169.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
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