Capítulo 127: Assumir, Cuidar, Sustentar
O Studio Florescer Crossdresser ainda estava fechado quando Anna pediu para Camila chegar um pouco mais cedo naquela manhã. O céu nublado deixava a luz suave, quase íntima, atravessando os vidros da cafeteria vazia. Roberta já estava lá, sentada à mesa maior, com algumas pastas organizadas à frente.
Camila sentiu o coração acelerar. Não era medo, mas uma expectativa que misturava alegria e responsabilidade.
— Fica tranquila — disse Anna, percebendo o nervosismo dela. — É uma conversa boa.
As três se sentaram. Anna respirou fundo antes de começar, como quem escolhe as palavras com cuidado.
— Camila, desde que as baias começaram a funcionar, ficou claro pra gente uma coisa — disse, olhando diretamente para ela. — Você já não atua aqui apenas como funcionária. Você se tornou referência, apoio, ponte.
Roberta completou, com a voz firme e acolhedora:
— As pessoas confiam em você. Se sentem seguras. E isso não se aprende em curso nenhum.
Camila sentiu os olhos marejarem. Pensou em tudo o que havia vivido até ali: o medo inicial, o acolhimento, as quedas internas, as reconstruções silenciosas.
— A gente quer te convidar oficialmente — continuou Anna — a assumir a coordenação das baias de trabalho e do acolhimento das novas clientes. Com autonomia, voz ativa e responsabilidade real.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas intenso. Camila passou a mão pelo próprio braço, como se precisasse se ancorar no corpo para acreditar.
— Eu… eu aceito — disse, com a voz firme, apesar da emoção. — Com todo o cuidado que isso exige.
Anna sorriu, emocionada, e Roberta estendeu a mão sobre a mesa, num gesto simbólico de parceria.
— Então é oficial — disse Roberta. — Você não caminha mais sozinha. Caminha com a gente.
Mais tarde, já com o Studio aberto, Camila assumiu o novo papel de forma natural. Organizou horários, acompanhou uma cliente que chegava pela primeira vez, explicou o funcionamento do espaço com calma. Tudo fluía — até que uma situação delicada surgiu.
Uma cliente recém-chegada, visivelmente nervosa, entrou no vestiário e, minutos depois, saiu chorando. O olhar perdido denunciava um conflito interno intenso. Algumas pessoas olharam sem saber como reagir.
Camila se aproximou com cuidado.
— Você não precisa explicar nada — disse, em tom baixo. — Mas não precisa passar por isso sozinha.
Sentaram-se em uma das mesas mais afastadas. Entre pausas longas e respirações profundas, a cliente confessou sentir culpa, medo de estar “errada”, pavor de ser descoberta. Camila ouviu sem interromper, sem corrigir, sem minimizar.
— Você não está errada por sentir — disse, por fim. — Só está começando a se ouvir.
Aos poucos, o choro cedeu. A cliente decidiu ir embora naquele dia, sem usar a baia, mas saiu diferente de como entrou. Mais leve. Mais inteira.
Quando ela se foi, Anna se aproximou.
— Era isso — disse, baixinho. — Não era sobre resolver. Era sobre sustentar.
Camila assentiu. Sentia o peso daquele novo lugar, mas também a solidez dele. Não era mais apenas sobre si. Era sobre cuidar de histórias em estado bruto.
Ao final do expediente, enquanto fechavam o Studio, Camila olhou em volta. O espaço parecia o mesmo — e, ao mesmo tempo, completamente transformado.
Ela também.
Continua... Aguarde o capítulo 128.
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