Capítulo 113: Uma Semente do Futuro
Era um dia comum no Studio Florescer Crossdresser.
O vai e vem constante de pessoas preenchia o espaço com aquela mistura já conhecida de aromas de café, risadas soltas e conversas que cruzavam mesas. Crossdressers, pessoas trans, homens e mulheres cis compartilhavam o mesmo ambiente com naturalidade, como se aquele pequeno mundo tivesse suas próprias regras — mais gentis, mais humanas.
Foi no meio dessa rotina que Camila reparou nele.
Um homem de terno escuro, aparência comum, sentou-se em uma mesa mais ao fundo. Tinha um jeito contido, quase tímido. Observava tudo com atenção: os vestidos coloridos, os gestos livres, os sorrisos despreocupados. Havia admiração em seu olhar — e algo mais profundo, difícil de nomear.
Camila foi até ele com a delicadeza de sempre.
— Boa tarde. O que posso te servir?
Ele pediu um café e um pedaço de bolo. A voz saiu baixa, educada.
Quando Camila voltou com o pedido, percebeu que o olhar dele ainda passeava pelo ambiente, como quem tenta absorver cada detalhe.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou, gentilmente.
Ele respirou fundo.
— Está… é só que… é a minha primeira vez aqui.
Camila sorriu.
— Seja muito bem-vindo. Fico feliz que tenha entrado.
— Eu passo em frente todos os dias indo pro trabalho — confessou ele. — Sempre quis entrar, mas nunca tive coragem. Hoje… achei que precisava conhecer.
Camila sentou-se por um instante à mesa, respeitando o espaço dele, mas deixando claro que estava ali.
— Fique à vontade. Aqui é um lugar seguro.
O homem baixou um pouco mais a voz.
— Eu… sempre quis fazer parte desse universo. Me vestir, agir como mulher, deixar esse lado existir, nem que seja por algumas horas. Mas sou casado, tenho filhos pequenos… e nunca encontrei espaço pra isso.
Camila entendeu na hora. Não apenas com a mente — com o coração.
— Eu sei exatamente o que você sente — disse, com sinceridade. — Sei o quanto isso aperta por dentro.
Ele pareceu aliviado por ser compreendido.
— Trabalho o dia inteiro de terno, em escritório. A empresa até ofereceu home office… mas em casa não tenho privacidade. Alugar um escritório é caro demais. Tudo o que ganho vai pros meus filhos.
Camila ouviu em silêncio. E, naquele instante, algo começou a se formar dentro dela. Uma ideia ainda crua, mas poderosa. Ela não disse nada. Ainda não.
Em vez disso, tocou o assunto com cuidado.
— Aqui você não precisa explicar nada. Pode vir quando quiser, do jeito que puder. Eu, a Anna e a Roberta estamos aqui pra apoiar.
Ele sorriu, pela primeira vez com leveza.
— Obrigado… de verdade. Nunca me senti tão à vontade em um lugar assim.
— Volte mais vezes — disse Camila, com um brilho nos olhos. — Coisas novas estão por vir.
Ele assentiu.
— Com certeza volto. Adorei tudo aqui.
Camila seguiu atendendo outras mesas, mas sua mente já estava longe. Enquanto passava cafés e trocava sorrisos, a ideia crescia, ganhava forma, se organizava.
E se o Studio pudesse ser mais do que um lugar de encontro?
E se também fosse um espaço de trabalho, de autonomia, de liberdade cotidiana?
Na mente de Camila, o projeto se desenhava com clareza:
Um espaço separado da cafeteria, silencioso e acolhedor, com pequenas baias de escritório. Cada uma privativa, equipada com mesa, cadeira confortável, gavetas, tomadas e estrutura para internet e telefone.
O Studio ofereceria a conexão.
As pessoas chegariam com roupas convencionais, usariam o vestiário dos fundos — que já existia — e se transformariam ali, com calma, na mulher que desejam ser.
As baias poderiam ser alugadas por dia, por períodos específicos ou mensalmente. Um lugar onde crossdressers e pessoas trans pudessem trabalhar montadas, com dignidade, silêncio e segurança.
Camila ainda pensava em melhorias:
- Agendamento online discreto, para facilitar a organização.
- Armários individuais para quem alugasse por períodos longos.
- Horários flexíveis, inclusive fora do pico da cafeteria.
- Um pequeno serviço opcional de café e lanches levados até as baias.
- E, quem sabe, encontros periódicos para troca de experiências entre quem utilizasse o espaço.
Quando o movimento diminuiu, Camila respirou fundo.
Sorriu sozinha.
Sabia que aquela ideia precisava ser apresentada a Anna e Roberta.
Não era apenas um projeto. Era uma resposta. Uma ponte entre o mundo que exige máscaras e o mundo onde se pode, finalmente, ser.
E Camila sentia, com a mesma certeza que a trouxera até ali, que o Florescer ainda tinha muito espaço para crescer. 🌷
Continua... Aguarde o capítulo 114.
Confira os capítulos anteriores em: Crônicas Anna Crossdresser
Capítulos novos todos os dias.

Comentários
Postar um comentário